Consumo de energia reage, mas alta forte ainda demora

O consumo de energia elétrica no Brasil dá sinais de recuperação desde junho, após as fortes quedas causadas pela pandemia de covid-19.

O consumo de energia elétrica no Brasil dá sinais de recuperação desde junho, após as fortes quedas causadas pela pandemia de covid-19. A expectativa é que os volumes voltem até o fim do ano aos níveis pré-crise na maioria dos setores, mas que um crescimento mais expressivo ocorra apenas nos próximos anos.

Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) mostram que agosto foi o primeiro mês em que a demanda total nacional cresceu na comparação anual desde o começo da crise sanitária, em março. O consumo no país em agosto totalizou 39,1 mil gigawatts-hora (GWh), alta de 1,4% em relação a igual mês de 2019.

A flexibilização de medidas de distanciamento social, a retomada da atividade industrial e a reabertura dos shopping centers estão entre os principais fatores que levaram à recuperação. De acordo com a EPE, o consumo comercial em agosto ainda esteve 9,8% abaixo de igual mês do ano passado, enquanto o industrial teve alta de 2,3% e o residencial cresceu 7,8%.

Especialistas apontam que os dados de setembro devem apresentar alta mais expressiva. Parte do crescimento, no entanto, é pontual. Nas últimas semanas, as temperaturas mais elevadas têm contribuído para um maior consumo de eletricidade, pois intensificaram o uso de aparelhos de ar-condicionado. “O consumo vem se recuperando aos poucos devido à retomada da economia, mas houve uma subida grande recente no Sudeste e no Centro-Oeste, que foi efeito, principalmente, da temperatura. O consumo residencial já vinha alto porque as pessoas estavam em casa e cresceu ainda mais”, diz o presidente da comercializadora de energia Argon, Moacyr Carmo.

O diretor-presidente da Brasil Comercializadora de Energias, Eli Elias, acrescenta que o reflexo da reabertura dos shoppings no consumo de energia foi forte. Ainda assim, a demanda do setor continua abaixo de igual período no ano passado e deve retornar aos níveis pré-crise dentro de quatro meses, assim como o setor industrial. “Nas próximas semanas podemos ter consumos residenciais até maiores que em 2019, por causa do clima mais quente. Isso também fez os preços de energia darem um salto significativo.”

A comercializadora Tradener vê o reflexo da reabertura em seu portfólio. A companhia atende cerca de 800 clientes e, em abril, viu todos baterem níveis de consumo abaixo dos volumes mínimos contratados, no pior momento da crise. Hoje, todos os consumidores voltaram a cumprir os contratos de compra de energia. O presidente da companhia, Walfrido Ávila, ressalva, no entanto, que um crescimento mais sustentável do consumo virá apenas com maiores investimentos industriais e no setor de serviços, o que deve levar pelo menos dois anos.

O professor Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico da UFRJ, concorda que a retomada ainda é lenta. “A pandemia criou uma crise econômica, com desemprego e perda de renda. Gerou também muita capacidade ociosa, então não vai haver crescimento do investimento em capacidade instalada. É um crescimento muito moderado.”

Há dúvidas também sobre a capacidade da indústria de manter o crescimento da produção nos próximos meses, devido ao ritmo ainda lento de fornecedores de matéria-prima e equipamentos. O avanço da eficiência energética é outro fator de incerteza para o aumento da demanda de energia. “Há tendência de crescimento do consumo, mas em paralelo há avanços tecnológicos que aumentam a eficiência e levam um viés de estabilidade para a de- manda”, diz Francelli Jodas, sócia da consultoria KPMG.

Fonte: Valor Econômico

09.10.2020

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